quinta-feira, 23 de março de 2017

obsolescência programada

As possibilidades não param de girar nas rodas do tinder, do okcupid e do happn. Tal qual as novas coleções de roupa nas lojas, que se renovam às custas de desumanização (trabalho). Sempre é preciso mais. Mais um crush ou mais uma peça de roupa. Aumentar o consumo e diminuir o humano. Trabalho para renovar o que se vende na vitrine da loja; trabalho para comprar e vender-se na vitrine que é a tela. A curta durabilidade e a incessante produção de novidades também garantem a suposta necessidade de consumir mais um. A falta de tempo - o tempo é sugado pelo trabalho - diminui a durabilidade das relações humanas - e no fim elas também são trabalho. Há sempre um próximo item para suprir as necessidades não atendidas pelo anterior. Nos ve[nde]mos (e desaparecemos) nas vitrines. Nunca vão parar de girar.     

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

outra vez-vem a nuvem

aqui no topo,
nuvem:
novelo de velas que lambem
o breu
no meu peito
e nada deslindam
no meu cérebro,
apenas descongelam.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

narcose


narcose, doçura.
delírio,
delirium tremens.
te extraño.
i miss you, sugar.
tremo de beijos,
degusto seu-meu medo.
medir o tempo, não merecemos.
não compreendo
essa relaciona-e-mente.
miragem, magia, milagre
não engrandecem.
te quero, coração,
sem tripa, sem trabalho.

são tantos agouros
que aturam os mosquitos
dentro da tua cabeça,
que tentam escapar pela tua nuca 
encucada e em coleira.
cria cores,
comete crimes
para salvar uma crise, um dia,
que nunca terminam.
too much work for something that never worked.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

semana passada

existo nesta mão que toca o estilete e
desiste de 
trincar anda mais meus
trinta.
e um segundo,
como um segundo olhar, me salva.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

"Deve-se queimar Beauvoir?" na Biblioteca Mário de Andrade


Deve-se queimar Beauvoir?
Oficina
Dia: 17 e 24, das 14h às 17h
Local: Sala infantil
A proposta da oficina é apresentar um panorama da vida e da obra de Beauvoir, com o foco nos conceitos filosóficos da autora necessários para compreender a sua análise sobre a mulher na sua célebre obra sobre o tema, O segundo sexo (1949). O objetivo é discutir o trabalho da escritora além dos aspectos acadêmicos. No último dia da oficina, cada participante terá espaço para apresentar sua produção ou manifestação inspirada na experiência adquirida nos encontros.
Juliana Oliva graduou-se em Filosofia pela Universidade São Judas Tadeu em 2007. Em 2014, como bolsista Capes, concluiu o mestrado em Filosofia com a dissertação Identidade e reciprocidade em O segundo sexo de Simone de Beauvoir. Atualmente, é doutoranda em Filosofia e bolsista da Capes pela EFLCH-Unifesp, onde pesquisa a relação erótica autêntica como imagem da reciprocidade entre homem e mulher em Simone de Beauvoir, a partir dos conceitos de O segundo sexo e das representações na obra literária Os mandarins.

sábado, 13 de agosto de 2016

Sexto encontro aberto do Cortázar Clube na Casa Elefante

Ainda estamos sem saber o que dizer sobre a descoberta no último encontro, que vestir um pulôver pode levar alguém a cair do décimo segundo andar. Talvez Marcos Lizardo tenha algo a dizer.
Enquanto isso, passemos ao próximo:
Sexto encontro do Cortázar Clube na Casa Elefante
No mês do aniversário do Cortázar convidamos todas e todos a levar algumas linhas de presente, algum conto curto ou trecho de qualquer outro escrito do Cortázar ou sobre ele. Que tal?
Dia 23.08 - 19h-21h @ Casa Elefante - Rua Cesário Mota Jr., 277 - próximo à estação Santa Cecília

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Deve-se queimar Beauvoir?



 flyer lindo divulgado na página do Mafalda



 




Olá. Meu nome é Juliana Oliva e eu estudo Simone de Beauvoir. Oi. Eu sou a Julie, eu saí do facebook há mais de dois anos e eu posto poemas confessionais neste blog anonimamente. Ah! Antes de tudo, dizem que eu sou uma mulher. Eu sou?
Foi da vontade de sumir que vai e volta, que anda fortemente presente nos últimos meses, que surgiu a ideia de criar este blog e, mais tarde, de sair do facebook. Sumir ao menos na vida virtual então. Não tem mais Julie nem Juliana Oliva, fica a better version of me, esta, talvez nem sempre melhor. Foram quatro pedaços de felicidade, quatro dias em que encontrei, graças à querida Renata, dez garotas (Alessandra, Beatriz, Gabriela, Graziela, Jessica, Julia, Lauana, Midria, Thainara e Zaira) e um garoto (Gabriel) no cursinho Mafalda SP Leste I, que me fizeram sair do anonimato neste blog. Ou melhor, não fizeram nada, na minha experiência com elas, com ele, desvelei o mundo de outra forma e escolhi dizer aqui quem eu sou, e o que eu fiz: um curso de férias.
"Deve-se queimar Beauvoir?", inspirado no título do texto da autora "Deve-se queimar Sade?", foi o nome que escolhi para o curso. A ideia era contar sobre a vida e a obra de Beauvoir e ensinar um pouco sobre a sua perspectiva filosófica e a aplicação desta no que diz respeito ao problema - aos problemas! - da mulher - das mulheres! - no célebre O segundo sexo, mas... partindo do que se diz sobre a autora, das frases atribuídas a ela nas redes sociais e do que cada participante conhecia a respeito. Acredito que consegui realizar a proposta. 
Foram quatro encontros. No primeiro dia perguntei "quem é Beauvoir?". "Beauvoir" era um nome frequente no facebook associado aos feminismos, era tema de uma pergunta do ENEM ou era apenas um nome que aparecia no título de um dos cursos de férias do Mafalda. Aos poucos, Beauvoir ganhou corpo na nossa sala, não apenas pelo que eu ensinava nas minhas longas falas que estouravam o tempo que eu pensava que a aula duraria quando escrevi a proposta, mas a cada olhar, a cada dúvida, a cada contestação, a cada comentário, a cada reflexão e principalmente, a cada reação contra a situação de machismo que ainda persiste. Situação que transcendemos ali dentro. 
Minha proposta para terminar o curso era abrir espaço para que cada participante expressasse na linguagem que preferisse o olhar que adquiriu ao longo dos encontros. O resultado foi lindo: um jogo de palavras, um poema, da Midria, a lembrança da Graziela da letra de "Pais e filhos" da Legião Urbana, o desenho que a Gabriela fez da Beauvoir, o desenho da Zaira inspirado no curso, o texto sobre Beauvoir e O segundo sexo escrito pela Jessica e a palavra final da Julia à pergunta "Deve-se queimar Beauvoir?"! Decidimos que não. 
Com este texto, agradeço à Re, ao cursinho Mafalda, a funcionárias e funcionários da UNICID (espaço que abriga o Mafalda), às alunas e ao aluno incríveis que tornaram o curso possível e à Tati Schunck (a maior incentivadora da escrita e da divulgação da proposta), e reitero que desejo muito que "Deve-se queimar Beauvoir?" aconteça em outros espaços. 
Eu sou a Juliana Oliva, mas podem me chamar de Julie. Às vezes eu canso de tudo, mas Beauvoir e muitas pessoas lá fora me lembram de que vale a pena não sumir. Então apareço. 




Alunas que estavam presentes no último dia do curso.





o presente que ganhei da Gabriela






O poema da Midria:


Durante todo o tempo de nossa existência

Uma questão que deve se manter em eminência 

É a da prática iminente da ausência


Da ausência de justificativa

Da valorização transcendental de toda liberdade original

De compensar o peso de suas ações sobre a terra

E perceber que a vida é como um nau:fragia ou não

A partir do que se entende e se faz dela afinal


nossa foto feita pela Julia


o texto da Jessica

quarta-feira, 6 de julho de 2016

12.07.2016, 5° encontro aberto do Cortázar Clube na Casa Elefante

Percebemos que o frio chegou e queremos nos divertir um pouco. Isso é tudo. A leitura do mês é "Ninguém seja culpado", do livro Final do jogo. Não sinta culpa se não tiver tempo de ler o texto, vá mesmo assim ao encontro. E não esqueça o seu pulôver.

Terça-feira, dia 12 de Julho de 2016 às 19h, na Casa Elefante - Rua Cesário Mota Jr., 277

convite no Google+: https://plus.google.com/u/0/events/cb7o4ob0pepun37pv6bcfjblq8g?authkey=CL3y2Of22uStgwE

sexta-feira, 10 de junho de 2016

terça-feira, 7 de junho de 2016

você de novo
aqui
minha voz
(vai agora)
vacila
cilada sua
soa e sua,
me domina,
me ilumina,
ilusionista
sua língua
alisa
meu vício,
minha sina,
viral
vi roubar-lhe a luz
e a lucidez
dez vezes
desde sempre
minha vida
má, vil vida em vão
não
(vai agora)
não.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

depois do post anterior, hoje esbarro neste trecho

"Désir d'écrire à Jacques. J'avais dit que non, il vaut mieux que non. J'y irais plus loin que peut-être il ne le voudrait lui-même. Il faut attendre sa lettre, qui ne viendra pas. Il y a quelque chose d'extraordinaire. Que je puisse concevoir si bien ma vie sans amour, et même la vivre. Que je ne sente aucun manque quand je n'aime pas, sinon par comparaison, et que j'aime ainsi d'un amour qui est une plénitude tellement incommensurable avec la fausse plénitude de l'autre." (BEAUVOIR, Simone. Cahiers de jeneusse 1926-1930. Paris: Gallimard, 2008, p. 532)

escrito por Simone de Beauvoir em 18 de novembro de 1928 no sexto caderno dos seus diários. Os grifos são meus. Alguém quer a tradução?

quarta-feira, 1 de junho de 2016

só para constar

"O que é toda essa história? Do que se trata? Quem é esse Robert L.? Chega de dor. Estou a ponto de compreender que não há mais nada em comum entre esse homem e eu. Dá no mesmo esperar um outro. Eu não existo mais. Então, se eu não existo mais, por que esperar Robert L.? Dá no mesmo esperar um outro se eu gosto de esperar. Nada mais em comum entre esse homem e ela." (Marguerite Duras)

Das coisas mais legais que eu já ouvi e li. Trecho da peça "A dor" (com Rita Grillo, dirigida por Vanessa Bruno) que está em cartaz no Sesc Consolação, provavelmente um trecho do livro A dor (La douleur) de Marguerite Duras. O grifo é meu.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

O que eu disse
retiro
na cabeça
não há melhor lugar
para uma bala
adoçar
os bichos que devoram o doce da vida
por dentro
matar de diabetes o pensamento
há de mirar e admirar
tiro

quarta-feira, 25 de maio de 2016

without thinking, without breathing, without blinking

preocupações estranhas, ouvindo In utero do Nirvana e digitalizando 32Mb de páginas... escrevi isto:

repetition
paranoia
my brain will stop
69 is the number of crimes
inside my head
once there was pain
in bed 
I beg myself to, please, do not stop
do not mess it all again
poor rhymes
poor pills
such a baby
to face the thrill
deny and lie
scream and cry
until the kiss is ill
with the bloody valentine
that licks me
blessed fingers
and holy mouth
pleasures inside the box
shaking bones
and caressing the thorns
around the wrists
to watch the pulse cease
my favourite season
is the winter, of course
but nothing like spring
when stomach and liver bloom
spiders and butterflies
by the way, you again,
butter me under your sheets
whisper me 
our dirty rules
grab me at the feet
close to your ears
inside out in your arms
I feel like I disappear
No beer
Wait for wine
You put fire on my mind
I love when we are
face to between the thighs
Pardon
if my writing is too much high
It's just because I'm constantly
afraid to die.

Quarto encontro do Cortázar Clube + participação de Tiago Genoveze

Recado do Clube:

Fiquemos com apenas uma surpresa, a do último encontro! 
O que não era surpresa aconteceu lá fora, e aqui dentro de nós. Surpresa ou não, rejeitamos esse acontecimento. 
Dispensamos a surpresa do próximo encontro. Não haverá "leitura surpresa", haverá a leitura de "Apocalipse de Solentiname" do livro Alguém que anda por aí
Mas não pensem que não gostamos mais de surpresas. Tendo lido ou não o texto, vocês podem aparecer de surpresa. Aliás, no último encontro ocorreram duas: a leitura, e a visita de um desconhecido chamado Tiago Genoveze, que será nosso parceiro no quarto encontro.

Eis o convite de T:

Solentiname é um lugar real. Um arquipélago no extremo sudeste do grande lago da Nicarágua. Uma utopia nas decadas de 60 e 70. As ilhas, hoje, quase inexistem de tão esquecidas.
Foi a leitura deste conto que me levou a viver em Solentiname por quase dois anos. Estarei presente no próximo encontro pra ajudar na contextualização histórica, compartilhar alguns trabalhos fotográficos que desenvolvi no local e, mais importante, emaranhar-me no conto com aqueles que estiverem presentes. 

O quarto encontro acontece na quarta-feira, 08.06.2016, às 19h na Casa Elefante - Rua Cesário Mota Jr., 277

https://www.facebook.com/events/1007779805956970/

https://plus.google.com/u/0/events/ci9hhmvntpjtd9ako770tm7kajo

quarta-feira, 18 de maio de 2016

you and me, we are just our hips

dark and twisted like Meredith, 
I choose 
to twist and shout my hips on yours
and to break the glass of my memory.

a toast to my dirty grey shadow
moving deliciously slow
during the meeting of 
bodies and no soul.

a great lover
has just escaped from my stomach
to lick you from head
to toe.

would you give me the pleasure of
one more night
to let everything go?

domingo, 15 de maio de 2016

Na sombra

Cansei de criar acaso,
de caso em caso,
de construir casas
em braços fracos
e pouco acolhedores.

Cansei de ver flores,
de plantar sabores
e de desenhar o aroma das cores
de amores
que desbotam o meu olhar.

Cansei de amar
a cidade cinza
onde se morre
um pouco a cada passo,
a cada esquina,
de bar em bar,
a cada estação que se deixa
e a cada rotina,
em vão.

Vão todos para o inferno!
Cidade enferma
alerta para o medo, o ódio
e o desapego.
Previsão de rajadas de vento.

Cansei de palavras de ordem,
de herói, de sorte,
do progresso corpulento.

Poema escrito para a foto de Rose Steinmetz para o Foto Sarau 3: https://www.facebook.com/fotosarau/

Chupar um limão

Ficou pensando no gole
que daria na sua pink lemonade
em seguida,
em como de um só golpe
a sua garganta
o líquido tomaria.
Ficou pensando ainda:
E se a bomba explodisse?
Pensou então na gosma retrógrada
que não apenas envolveria,
mas deformaria a sua vida,
de um só golpe.
Assim sentiu como a gola,
do casaco da última moda,
o golpeava.
Cada letra impressa na sua nuca
o sufocava.
E se a bomba,
a maldita promessa dos canalhas,
de deuses e armas,
explodisse?
Voltou a pensar na limonada,
agora no copo e no gelo,
que arrebentavam.

Poema escrito para a foto de Arluce Gurjão para o Foto Sarau 3: https://www.facebook.com/fotosarau/

domingo, 24 de abril de 2016

domingo, 10 de abril de 2016

poema ao pernilongo

Escutando o zumbido,
meio desperta, meio dormindo.
Sinto que existo
apenas esperando a morte chegar, 
a minha ou a dele.

Imperceptível o tempo
tal qual
a sustentação quase invisível
deste que suga a vida,
não tanto pelo sangue
mas pelo sono que me tira.

Três da manhã, quem dera,
olhos cobertos, rumo a imagens incertas,
cerimônia de sossego ao corpo.
Em vez de sonho, celofane levita pernas longas.

Pequeno corpo,
listras, picadas,
sob a minha vista cansada.
Sacudo, acudo em vão
o meu sono, a cada vôo
deste intruso.